terça-feira, 8 de março de 2011

Bolo Gelado

Eu tive a responsabilidade, e claro, todo prazer, de estrear a coluna “memórias afetivas” para o Fica a dica... E falar de memória culinária é remover o baú das lembranças e fechar os olhos sentindo gosto de coisas boas. E como o blog é uma parceria da Evelyn e da Vilma, minha grande amiga, eu só poderia falar de uma das muitas comidas que a Vilma fez em Assis (interior de São Paulo e onde nós nos conhecemos por causa da faculdade) e que povoam as minhas lembranças de um tempo difícil, mas muito feliz.
De todos os pratos que eu poderia falar, nenhum é mais significativo do que o Bolo Gelado.

Nossa, é realmente de fechar os olhos e sentir o sabor. E a minha história em Assis não teria sido a mesma sem ele. A primeira vez que eu o comi foi num aniversário meu. Estávamos ainda no primeiro ano, tínhamos nos tornado amigas pelo meio do primeiro semestre, e na véspera do meu aniversário eu tinha combinado com ela de ir a sua casa pra estudar para uma prova de História das Religiões no dia seguinte.
Deixei avisado com antecedência que, por causa do horário e da distância que morávamos, eu já estava levando a “malinha” essencial pra passar a noite lá e irmos direto no dia seguinte. Eis que, quando eu cheguei lá, ela me deu uma bronca: Por que eu estava ali? E eu com cara de “como assim, nós combinamos”. E eu não me dei conta do que ela estava cozinhando, afinal, pensar na Vilma, é pensar nela cozinhando alguma coisa! E se ela mesma não tivesse me dito, eu realmente não ia prestar atenção. Ela me falou que eu estraguei a surpresa, que ela e a Vanessa – que na época morava comigo na república – tinham combinado de fazer uma festa surpresa pra mim e aquele era o meu bolo.
Eu ri, não pude ter outra reação, pois eu mesma havia dito que nunca tinham organizado uma festa surpresa para mim, mas ainda assim, fiquei extremamente feliz. Mas quanto ao bolo, naquele momento eu pensei – e isso eu nunca dividi – por que ela está fazendo um “bolo branco”, se ela sabe que o meu bolo favorito é o de chocolate?? Mas isso eu não dividi, estava realmente emocionada com o carinho delas terem pensado em mim. O que me revoltou no momento, foi ela não ter deixado eu comer o dito do bolo, raspar a tigela da massa nem do recheio, com a alegação de que, se eu nunca havia comido aquele bolo, só ia experimentar no dia seguinte, quando ia, realmente, acontecer a festa.
Na mesma noite, porém, enquanto estudávamos para a prova, afinal, era esse o real motivo da minha ida à casa dela, recebi uma ligação que me deixou ainda mais feliz, meus pais tinham se “desbarrancado” de Bady Bassitt – minha cidade de origem – a Assis pra me fazer uma surpresa. Suspendemos os estudos e eu fui embora. No dia seguinte, depois de fazer uma mega prova de “Religiões” e uma mudança – do prédio que eu morava para um outro mais no interior do bairro e próximo do centro – o pessoal foi pra minha casa pra dita festa, com a diferença que, com os meus pais lá, houve, além do bolo, um churrasco.
Depois daquele aniversário, não consigo mais pensar em outro bolo que possa ser considerado bolo do meu aniversário. Ela o fez no ano seguinte, 2004, quando estávamos no segundo ano, dessa vez fui eu mesma que pedi. E olha que, desta vez, eu tinha um leque imenso de opções. Quando ela me perguntou qual eu queria, não precisei nem pensar. “O meu bolo!” Ela já sabia que era o bolo gelado, e que, coincidentemente ou não, ela não o fez nenhuma outra vez no ano – ou nos anteriores – que não fosse no meu aniversário.
Das lembranças tristes que tenho em Assis, uma delas foi no terceiro ano, eu morava numa outra república, e por tantos motivos que eu não teria permissão para listar aqui, não vi a Vilma no meu aniversário, e pelo fato de termos realmente tanta coisa pra resolver, ela não fez o “meu bolo”. Tinha sido um ano difícil, e de muitas coisas que eu gostaria que tivessem acontecido aquele ano, ter comido o bolo no meu aniversário era uma das que eu mais queria, e foi uma das poucas que eu não tive a oportunidade. Então essa lembrança “ruim” também está relacionada com o Bolo Gelado do meu aniversário.
Mas, no ano seguinte, nosso último e que, desde julho, chorávamos com a simples menção de que era o último ano que estaríamos todos juntos, nós chorávamos, quando a Vilma chegou, naquele 04 de dezembro no meu apezinho com o meu bolo, eu chorei. Tive tantos motivos pra chorar naquele momento, que a simples lembranças dele, agora 5 anos e tantos meses depois, me fizeram chorar. Um destes motivos foi o medo que, depois da formatura eu perdesse aquela que se tornou uma das pessoas mais significativas na minha estada em Assis.
E que, por nossas forças mais exaustivas, tive a sorte de manter na minha vida, se não pessoalmente – mesmo que, tenhamos o orgulho de ao menos uma vez por ano nós nos encontramos, ou na casa dela ou na minha, e isso me deixa extremamente feliz, como comer o meu bolo de aniversário, e que ela sabe que, agora não importa mais a época do ano, sempre que nos encontramos ela faz, e o mais divertido: nós cantamos “parabéns pra você” como naqueles aniversários saudosos.
O sabor do bolo. Não sei descrever. Realmente não sei. Tem sabor de lembrança. De quando você começa a levá-lo à boca, pensa nas dificuldades que passava na faculdade, das horas de sono perdidas e do quanto nós apanhamos da vida. Mas também, quando saboreia e engole, sente por horas a sensação de felicidade, do companheirismo, da amizade, risadas, choros, dos planos “quem serei daqui a 5 anos”, e que nenhuma de nós acertou. E de mais tanta coisa que eu não consigo traduzir em palavras, mas que fazem com que eu sorria cada vez que penso. Por esses e tantos motivos, a minha “memória afetiva” é o bolo gelado, o “bolo do meu aniversário”.


De: Shellida Duarte da Silva

2 comentários:

Evelyn Lauro e Vilma Campos disse...

Ai que lindo, a Vilma tem mesmo o dom de, além de cozinha muito bem, tocar de verdade o coração das pessoas que se deixam tocar.
Vamos ter que esperar dezembro pra comer esse bolo? qnd vem a receita?
Beijos
Por: Evelyn A. Lauro

Shell disse...

Não sei você, mas eu to comendo esse bolo desde sábado, o dia que eu cheguei aqui em Tupã para o carnaval!!