segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Dias de Mel


Existem muitas maneiras de salvar uma civilização. Uma das mais simples é com comida e essa é a maneira pela qual a minha pequena civilização vem sendo salva!

O texto de Anna Ciezadio poderia perfeitamente ter sido escrito por mim. Um outro cenário,  outros personagens e inspirado por uma infinidade de outros sabores resultariam num relato muito semelhante, porque ambas, para a minha surpresa, vêem o ato de comer da mesma forma.

O Iraque pós queda de Sadam Hussein o Líbano atravessando uma guerra civil e a cidade que depois de 03 anos ainda reluta em me aceitar como parte dela são igualmente hostis. Não deram à mim, nem à Annia, uma casa, o lugar onde se compartilha o pão com pessoas queridas. Meus mais simples e mais elaborados pratos são sempre servidos prá uma só pessoa, àquela que ao sentar à mesa não tem com quem dividir o entusiasmo do feito. O prato já fora provado uma centena de vezes e as impressões do produto final já lhe são óbvias.

Mas engana-se quem acha que o dissabor de não ter com quem partilhar o pão nos afaste da cozinha. Assim como Annia, quanto mais me sinto sem raízes, mais eu cozinho. Passo horas na cozinha esperando por um tempo e um lugar onde as pessoas que se amam sentem em volta de uma mesa e conversem. Posso dizer com a segurança de quem não perde o ponto de uma calda que poucas vezes tive momentos assim aqui...

Cozinho para compreender o novo lugar, para tocar, sentir e assimilar a matéria-prima do meu novo ambiente. Faço comidas que parecem familiares e comidas que parecem estranhas. Cozinho porque comer sempre foi meu jeito mais confiável de entender o mundo. (...) Cozinho para afastar a solidão, a saudade de casa, o sentimento persistente que não pertenço a um determinado lugar e porque a comida restaura uma sensação de familiaridade. 

Imagino que quando a minha irmã escolheu este livro para me dar de presente de aniversário pensou apenas em comprar um livro que falasse de comida mas que não fosse propriamente um livro de receitas. Devo dizer que ele foi mais... é como se eu tivesse dado a alguém, a chance de escrever minha própria história.

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